VIÚVAS DE MARIDOS VIVOS: O RETRATO DA SUPERAÇÃO DE MULHERES SÃO-BENTENSES QUE FICARAM SOZINHAS

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“A única lembrança que eu tenho do meu pai é dele indo embora, com uma camisa laranja, uma calça azul e um sapato preto que o irmão dele deu pra ele viajar. Eu tinha quatro anos, meu irmão mais novo tinha 1 mês e 16 dias. Pai ia pra Brasília com a promessa de depois mandar dinheiro pra que eu, minha mãe e meus quatro irmãos fôssemos também. A gente morava num sítio de São Bento, passamos tanta fome, e ele nunca voltou”, disse Francisca Jerônimo de Araújo, conhecida como Netinha, hoje com 48 anos, filha da primeira de três irmãs a ser abandonada pelo marido, no ano de 1974. Ramon Jerônimo dos Santos deixou sua casa para procurar emprego em Brasília, mas nunca mais voltou.

Na ‘capital mundial das redes’, São Bento, no Sertão, essa realidade, distante dos teares, costuras e confecções que atraíram países diversos para a localidade também chama a atenção: o conto das viúvas de maridos vivos, mulheres que criaram seus filhos sozinhas na expectativa que, um dia, os maridos que partiram em busca de melhores condições de vida noutras regiões, voltassem para as famílias. Eles nunca voltaram. Até os anos 90, esse tipo de situação era recorrente na cidade. Mas em uma família de quatro mulheres, três tiveram o mesmo destino: o abandono e a incerteza que as acompanharam por longos anos. As “Irmãs Farofa”, como são conhecidas, trabalharam de sol a sol para que os filhos não morressem de fome.

Essa história tornou-se pública após a jornalista e radialista Jô Santana, que há 20 anos reside e trabalha em São Bento, fazer uma pesquisa para a faculdade de Comunicação na qual estudava. “Eu sempre ouvia minha mãe falando disso, mas não sabia onde estavam essas mulheres, que não são só três, são várias. Quando um professor levantou o tema, pensei: é a oportunidade que tenho de encontrá-las”.

A socióloga e historiadora Nilda Câmara compara que esse abandono de mulheres no interior da Paraíba aconteceu em várias cidades entre os anos 60 e 90. “Inclusive a literatura passou a chamá-las de viúvas da seca, porque o que as colocou nesta condição foi a falta de recursos que levou os maridos a migrarem para o Sul e Sudeste. Mais tarde isso foi desconstruído, porque não era só a seca, mas principalmente a falta de industrialização e investimento no Nordeste”, disse.

Gênero sobressai

“No caso das chamadas viúvas de maridos vivos, em São Bento, a questão de gênero se sobressai. Os homens vão para o Sul e arrumam outras famílias, esquecem ou não querem mais saber das pessoas que deixaram. Os homens dessa geração não foram educados para educar e amparar. Na verdade, a responsabilidade sempre ficou para as mulheres, são elas que saem atrás de alimentação e sustento para os filhos. Apesar da família nuclear dizer que o homem é o provedor, a mulher trabalha três vezes mais” -Nilda Câmara, socióloga e historiadora.

Do abandono à superação

As “Irmãs Farofa”, Francisca Izaura de Araújo, 72 anos, e Maria Izaura de Araújo, 75 anos, ainda moram em São Bento, com os filhos, e afirmam com toda convicção que não querem mais saber de nenhuma notícia dos maridos que elas esperaram por tantos anos. A primogênita de uma família de 10 irmãos, sendo quatro mulheres, Juraci Izaura de Araújo, conhecida como dona Preta, faleceu há pouco tempo, com 77 anos, sem nunca rever o esposo e primo legítimo, Ramon Jerônimo dos Santos, também já falecido. Ela foi a primeira das três irmãs a ser abandonada.

Dona Preta tinha 32 anos quando o marido foi embora, em 1974. Ele, com apenas 30 anos, deixou a casa para buscar trabalho na Capital Federal. Na época, Netinha contava apenas com quatro anos, enquanto seu irmão mais velho tinha 8, e o mais novo apenas 1 mês e 16 dias de vida. “O combinado é que ele mandaria dinheiro pra ajudar minha mãe, mas isso nunca aconteceu. A família dele era nossa família, já que meus pais eram primos legítimos, mas todos viram a gente passando fome e não fizeram nada. Minha mãe dava a pouca comida que tinha para os filhos e dormia com fome”, disse Neta.

A filha de Dona Preta conta que a mãe trabalhava na roça durante o dia e à noite tecia acabamentos de redes.

Foram tempos difíceis. Viemos para a cidade com a ajuda de um tio e ganhávamos a feira de um prefeito da época. Já na cidade, minha mãe aprendeu a fazer trancelim, que é uma técnica de confecção de punhos de rede. Ela trabalhou fazendo isso por 38 anos numa fábrica. Criou os cincos filhos, três cursaram ensino superior, todos viveram bem”, lembrou Neta.

Em 1982, quando Preta havia superado o abandono do marido, mais duas irmãs passaram pela mesma situação. Dona Francisca Izaura lembra que após 16 anos de casada, não esperava que Francisco Alves Batista fizesse exatamente a mesma coisa que o cunhado.

“Quando nos casamos ele era pedreiro, depois inventou de ser corretor de rede e eu vi minha vida mudar do dia pra noite, porque ele passava até quatro meses fora de casa. Não demorou muito pra ele sumir pra sempre. A mais velha tinha 12 anos e o mais novo cinco. Foi difícil, carregamos pedra em carroça de mão pra ganhar um trocado pro leite dos mais novos, mas eu consegui”, disse Francisca Izaura.

Veja o video feito em 2012

Correio da Paraíba
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